


A novidade de Nova
Os movimentos de vanguarda foram particularmente eficientes em mobilizar revistas enquanto instrumentos de luta e difusão de manifestos e princípios, ainda que não tenham se destacado em termos de durabilidade. Além de cumprirem a função de combater o passado e dar publicidade a ideais hodiernos, os periódicos também desempenharam papel estratégico no processo que consagra e transforma a inovação em cânone, uma vez que colaboraram para difundir e habituar leitores a procedimentos estéticos originais.
Nessa perspectiva, algumas publicações se tornaram quase sinônimo do movimento modernista brasileiro, como é o caso de Klaxon, mensário de arte moderna (SP, maio 1922 a jan. 1923), iniciativa de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Antonio Carlos Couto de Barros, Tácito de Almeida, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Rubens Borba de Moraes e Luís Aranha; Estética (RJ, set. 1924 a jun. 1925), sob a direção de Sérgio Buarque de Holanda e Prudente de Moraes, neto; A Revista (BH, jul. 1925 a jan. 1926), editada por Carlos Drummond de Andrade, Francisco Martins de Almeida, Emílio Moura e Gregoriano Canedo; Terra Roxa... e outras terras (SP, jan. 1926 a set. 1926), quinzenário em formato de jornal dirigido por Couto Ribeiro e Alcântara Machado, com Sérgio Milliet na secretaria de redação; Verde, revista mensal de arte e cultura (Cataguazes, set. 1927 a jan. 1928), projeto dos estudantes Ascânio Lopes, Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino César, Henrique de Resende, Martins Mendes e Rosário Fusco; e a Revista de Antropofagia (SP, maio 1928 a fev. 1929), fundada por Oswald de Andrade e dirigida por Antônio Alcântara Machado e Raul Bopp na primeira dentição, com Oswald de Andrade, Oswaldo Costa, Jaime Adour da Câmara e Raul Bopp à testa da segunda (SP, mar. 1929 a ago. 1929). Esses periódicos contam com edições fac-similares esmeradas, acompanhadas de estudos densos e, por vezes, depoimentos e textos de cunho memorialístico, ao que se somam várias dissertações e teses que se debruçaram sobre títulos específicos.
O rol apresentado não significa que inexistissem outras, bastando evocar Novíssima. Revista de arte, ciência, literatura, sociedade, política (SP, dez. 1923 a jul. 1926), de Cassiano Ricardo e Francisco Patti; Festa, mensário de pensamento e arte (RJ, 1ª fase, out. 1927 a set. 1929), capitaneada por Tasso da Silveira e Andrade Murici; Movimento Brasileiro (RJ, out. 1929 a jan. 1930), cujos nomes-chave eram Renato de Almeida e Graça Aranha, conjunto que, a exemplo do anterior, também foi alvo de estudos acadêmicos, ainda que somente para Festa se disponha de edição fac-símile. Entretanto, o grupo anterior é o que acumula maior fortuna crítica e referências nos manuais de história literária.
A Revista Nova, lançada em 15 de março de 1931, na cidade de São Paulo, por três nomes dos mais representativos no cenário cultural, Mário de Andrade, Paulo Prado e Antonio de Alcântara Machado, não recebeu a mesma atenção por parte da historiografia. De fato, há significativo silêncio em torno do periódico, que circulou até dezembro de 1932, em conjuntura marcada pelos efeitos da crise de 1929 e pelos momentos iniciais do governo provisório, instaurado pelo golpe de 1930, com Getúlio Vargas à frente. Os ocupantes do poder declaravam a intenção de reformular o país, ancorados num discurso de ruptura com a experiência anterior e em prol da modernização de todos os setores da vida nacional. Talvez em função do clima reinante, os mentores da revista decidiram se valer do adjetivo nova, particularmente mobilizado pelos protagonistas do mundo político, que se consideravam instituidores de um novo tempo, o da República Nova, contraposto à República Velha, denominação pejorativa mobilizada para caracterizar os antecessores.
O manifesto-programa, assinado pelos proprietários e diretores, parte da constatação do “imenso atraso intelectual do país”, razão pela qual a revista “se destina a uma minoria, fazendo tudo quanto lhe for possível para engrossá-la”. Apresentado o diagnóstico, o breve texto prosseguia explicitando os objetivos:
“Com tal intuito não se cingirá à pura literatura de ficção. Nem mesmo lhe reservará a maior parte do espaço. O conto, o romance, a poesia e a crítica deles não ocuparão uma linha mais do que de direito lhes compete numa publicação cujo objetivo é ser uma espécie de repertório do Brasil. Assim o interessado encontrará aqui tudo quanto se refere a um conhecimento ainda que sumário desta terra, através da contribuição inédita de ensaístas, historiadores, folcloristas, técnicos, críticos e (está visto) literatos. Numa dosagem imparcial. Resta esclarecer que, sendo da sua terra, a Revista Nova será também do seu tempo. E deste terá sobretudo a feição polêmica que o caracteriza.”1
A ambição da Revista Nova, idealizada e gerida por nomes representativos do modernismo, subordinava a produção ficcional e a discussão de problemas estéticos ao intento de se constituir em espaço de reflexão e debate acerca dos rumos do país e da realidade nacional, proposta que dialogava com a conjuntura, marcada pela urgência do autoconhecimento, postura que ressurgiu com força e inaugurou mais uma redescoberta do Brasil. Na sua correspondência, Mário insistiu nesse ponto e reafirmou, em várias oportunidades, os princípios enunciados na apresentação e que guiavam a escolha do material a ser publicado. Para Augusto Meyer, meses antes do surgimento do primeiro número, informava: “É uma revista séria, de 150 páginas no mínimo, trimestral, publicando muito pouca literatura, pelo menos literatura gratuita. Muita crítica e muitos estudos de qualquer ordem que tenham imediata correlação com o Brasil.”2 Além disso, assegurava ao amigo que “a revista, você nos conhece, ou pelo menos a mim, não terá a mais mínima restrição estaduanista, será de interesse e de divulgação brasileira”. Pouco depois, para Câmara Cascudo, um dos colaboradores assíduos, afirmava: “Queremos logo, logo o artigo sobre Álvares de Azevedo e o fumo (...). Quanto ao Buda, por enquanto, pra orientação brasileira da revista não interessa bem, veria descaminhar muito essa orientação, o que aliás é a única bem fixa pro corpo dos artistas [sic]: coisas que interessam diretamente ao Brasil.”3
A revista era, de fato, nova no sentido de romper com a recente tradição de periódicos modernistas nos moldes inaugurados por Klaxon, uma vez que não se tratava de combater a ordem literária vigente, proclamar e exercer o direito à experimentação, mas, antes, contribuir com o empenho de compreensão do país, projeto que, se não excluía a criação literária, tampouco a privilegiava. Manuel Bandeira foi preciso ao salientar, em carta a Mário de Andrade, datada de 14 de abril de 1931, que “desde logo posso dizer que estou de pleno acordo com o programa representativo da revista (...). O que é preciso é uma revista que seja uma espécie de arquivo da nossa cultura geral. A vantagem de ser feita por gente de vanguarda é incluir também a vanguarda, e vanguarda bem escolhida”4.
De outra parte, a proposta perde o tom inovador se encarada em perspectiva diacrônica, pois é possível reatar os fios de uma tradição que remontava, no mínimo, à Revista do Brasil (SP, jan. 1916 – maio 1925), pois a Nova recolocava em cena propostas típicas das revistas culturais, com particular destaque para aquela que foi a mais importante no seu gênero e que teve Paulo Prado como diretor de janeiro de 1923 até seu encerramento, período no qual Mário de Andrade se tornou colaborador5.
São notórias as semelhanças entre as duas publicações, não apenas no que respeita aos objetivos, mas também quanto às dimensões, padrão da capa e distribuição interna dos conteúdos. Tal qual na antecessora, em geral o número da Revista Nova abria-se com o editorial (Momento), cuja denominação era praticamente idêntica à adotada na Revista do Brasil (O Momento) à época de Paulo Prado, e que, no mais das vezes, abordava temas candentes. Seguiam-se os artigos, sempre antecedidos pela reprodução de algum documento de valor histórico e entremeados por produção ficcional, conjunto que se encerrava com as seções Crônicas, Notas, Resenha, Brasiliana, Etnografias, que não se fizeram presentes em todos os dez exemplares. Entre os que assinaram os tão desejados estudos estavam, além dos diretores, Luís da Câmara Cascudo, Ronald de Carvalho, Tristão de Ataíde, Octávio de Faria, Alfredo Ellis Júnior, José da Silva Gordo, Martins de Almeida, Antonio Piccarolo, Astrogildo Pereira, Afrânio Peixoto, Homero Pires, Azevedo Amaral, Artur Motta Filho, Osório César, amostra que indica a diversidade de posições políticas que a revista foi capaz de reunir no decorrer dos seus oito números, cumprindo, pelo menos em parte, o programa inicial.
Note-se que o título adquire tom particularmente ambíguo, podendo, inclusive, ser colocado em questão no caso de se levar adiante comparação com os periódicos vanguardistas dos anos 1920, cuja série se considera encerrada com a Revista de Antropofagia que, aliás, marcou a ruptura entre Mário e Oswald de Andrade. A Nova abraçou outros desafios e, nesse sentido, não haveria novidade na derradeira publicação lançada por protagonistas da Semana de Arte Moderna, daí em diante distanciados não apenas em função das disputas em torno da herança do movimento, patente desde meados dos anos 1920, mas também por doutrinas e lutas políticas que marcaram os anos 1930 e que os levou a trilhar caminhos distintos.
Compreende-se, portanto, que Nova não tenha sido abarcada na sequência de títulos consagrados pelo discurso acerca do modernismo. A revista teve vida breve e circulou em momento de grande incerteza política, que se tornou particularmente tenso com o movimento de 1932, que opôs São Paulo ao restante da federação e que acabou por selar o seu desaparecimento. Talvez por se propor a conciliar participação nos debates em torno dos rumos do país, postura típica de antecessoras como a Revista do Brasil, com as conquistas da vanguarda, Nova ainda ocupe zona cinzenta e permaneça esquecida, numa espécie de entre-lugar à espera de pesquisadores que esclareçam o papel que desempenhou no seu tempo.
Tania Regina de Luca
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Texto de abertura, sem título, assinado pelos três diretores. Revista Nova, n.º 1, pp. 3-4, mar. 1931.↩︎
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Lygia Fernandes (org.), Mário de Andrade escreve cartas a Alceu, Meyer e outros, Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1968, pp. 83 e 84, carta de 23 jan. 1931, o que indica que o processo de preparação do lançamento da revista foi cuidadoso.↩︎
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Veríssimo de Melo (org.), Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo, 2ª ed., Belo Horizonte, Itatiaia, 2000, p. 104. A expressão “corpo dos artistas” talvez se deva a um lapso da transcrição do documento ou do próprio missivista; o mais provável é que se tratasse do corpo dos artigos. Em nova carta a Cascudo, de 29 de Maio de 1931, Mário voltou ao tema: “achamos o assunto [Buda, Santo Católico], por enquanto, pouco propício para nós que inda não estamos definitivamente fixados e queremos de todo em todo caracterizar a revista como órgão de interesse e pesquisas de ordem intrinsecamente nacional,” p. 108.↩︎
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Marcos Antonio de Moraes (org.), Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira, 2ª ed. São Paulo, Edusp, IEB, 2001, p. 499.↩︎
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A Revista do Brasil foi lançada em janeiro de 1916 por Júlio Mesquita, proprietário do jornal O Estado de S. Paulo, e adquirida por Monteiro Lobato em maio de 1918. Para poder importar maquinário moderno para sua gráfica e editora, Lobato associou-se ao empresário Paulo Prado. A primeira fase da revista encerrou-se em função da falência dos negócios de Lobato.↩︎














